No almoço de Domingo Gordo éramos cinco: a matriarca, os dois filhos, o genro e a nora. A canalha (17, 20 e 25 anos) não comeu connosco, os primeiros porque foram correr o Carnaval (alerta regionalismo), a segunda por razões profissionais. Éramos cinco, portanto, para dar conta de um cozido que daria para dez, já calculando com as sobras para a feijoada que se há-de seguir.

Eu nasci e cresci em Maceda, freguesia de Ovar, cidade com pergaminhos nas artes de brincar ao Carnaval. As minhas duas avós diziam correr (ou jogar) o Carnaval e eu também gosto de dizer. Desconheço se em Ovar-cidade há quem diga o mesmo, mas isso é irrelevante. Na minha família corremos o Carnaval – e também o comemos.

O único avô que conheci, o Zé Silva, era um exímio matador de porcos. Não é coisa bonita de se dizer, ou de se escrever, mas as coisas são o que são. O meu pai, por exemplo, era caçador, mas incapaz de matar um porco – era o meu avô quem vinha a nossa casa tratar do assunto, quando ainda por lá se criavam os bichos. No dia marcado para o sacrifício, as crianças apiedavam-se do animal, o que deixava o Zé Silva completamente fora de si. “Tirem-me daqui a canalha, se não o porco não morre!”

Nós tínhamos pena do porco, é verdade, mas rapidamente o esquecíamos – porque crescemos a comer porcos, galinhas, coelhos criados em casa – e dali a pouco já estávamos a provar o sangue do bicho cozido, que era a primeira coisa que o meu avô preparava depois da matança. No dia seguinte, ao almoço, comiam-se febras e, ao jantar, a rojoada que o meu avô preparava em panelas de ferro que ardiam num fogo de chão. Acho que ainda hoje sinto o sabor daqueles rojões incomparáveis.

Desde cedo aprendi a gostar de tudo o que vem do porco. Do sangue cozido, das tripas e dos couratos de vinha d’alhos e de todas as miudezas que se possam nomear: do fígado que se servia cozido com os rojões, dos pulmões com arroz (na minha terra chamava-se colada aos pulmões, mas a colada, vejo agora, é uma coisa mais ampla, que inclui outras vísceras), dos rins e da língua salgados. “Do porco aproveita-se tudo”, dizia sempre a minha avó Felismina, quando estava a encher as morcelas e os salpicões que ficariam pendurados “na cozinha do lume”, era assim que ela dizia.

Já não tenho nenhum avô nem nenhuma avó e ninguém na família mais próxima continua a criar porcos. Há, no entanto, algumas tradições que fazemos questão de cumprir e no Domingo Gordo a minha mãe ainda gosta de fazer um cozido “à moda antiga”, tanto quanto possível.

Na semana que antecedeu o Carnaval, ela atarefou-se a arranjar as carnes que não podiam faltar no nosso cozido e que tinham de ser salgadas: entrecosto, rabo, língua, orelha, chispe. Mais as morcelas e os chouriços, “um niquinho de carne de vaca”, porque quase ninguém come, frango para quem não dispensa. Mas faltavam os rins – cozido sem rins é que não pode ser. Fiquei com a tarefa de os tentar comprar. Não foi fácil, mas consegui que num talho da zona mos arranjassem. Quando os fui buscar, estavam 13 à minha espera. Estupefacta, disse que não queria tantos. “Ó menina, leve lá isso, são 2,80€.” Vieram.

Parece que não, mas fazer um cozido dá uma trabalheira dos diabos. Eu não fiz quase nada, limitei-me a cozer as cenouras e o frango. O resto apareceu feito. Sentámo-nos à mesa e consolámo-nos. Ainda virámos vinho tinto para cima da travessa das hortaliças, mas ninguém se preocupou com isso.

A minha mãe estava feliz e orgulhosa do seu cozido – e não é para menos. “Só falta aqui uma coisa de que o teu avô gostava muito no cozido: coração.” Desta eu não sabia e não me lembro, sequer, de alguma vez ter provado coração de porco. Talvez para o ano, mãe.

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