Pôs um vestido que pertencera à mãe e que só tinha usado uma vez, dois anos antes, no primeiro dia de aulas. Sentiu-se desconfortável ao ver-se ao espelho, especialmente ao perceber as semelhanças com a mãe, acentuadas pelo vestido. Alisou-o, penteou-se, ajeitou o decote. Entre avanços e recuos, entre dias que alternavam transparência e opacidade, a Ana decidira aceitar jantar com o Eduardo, depois de muita insistência da parte dele. Fora um processo longo, desde o momento em que ele a tentara beijar até esse dia, não fora nada de fulminante ou avassalador, tinha sido mais como uma doença silenciosa conquistando o espaço sem alarde, crescendo debaixo da pele, aproveitando a ausência de luz. O Eduardo foi buscar a Ana a casa. Não levava flores nem chocolates, que ele não era pessoa de oferecer estereótipos, preferindo a naturalidade da sua presença, sem qualquer artifício. O Eduardo, claro, percebia pouco da vida. Cantamos melhor no duche do que ar livre, a reverberação ajuda a isso, a paisagem vê-se melhor do topo da montanha do que no bosque do sopé, reza-se com mais fervor dentro de um avião em queda do que antes das refeições, ou seja, as circunstâncias importam, e, neste caso específico, os objectos, as roupas escolhidas, o penteado, tudo isso faz parte de um ambiente que propicia e enquadra determinados gestos, que sublinha a importância de certos dias que se querem especiais. A escolha do Eduardo, ao pretender não ser mais do que ele próprio era nos outros dias todos, achatara a importância daquele jantar a quase nada, estratégia que revelou uma assimetria indesejada quando a Ana apareceu com o vestido da mãe.

Fuente